Por onde anda Sheila Regina, nossa jovem cientista 2008? - Por George Oliveira

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Por onde anda Sheila Regina, nossa jovem cientista 2008? - Por George Oliveira

Por onde anda Sheila Regina, nossa jovem cientista 2008? - Por George Oliveira


Professora da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), Doutora Sheila Regina dos Santos Pereira nos concedeu valorosos aprendizados num breve bate-papo. Ela se destaca por sua trajetória de superação por meio da educação, desde a formação em escola pública, em Paripe (Salvador-Ba), até a graduação em Estatística na UFBA (Universidade Federal da Bahia), o mestrado na Unicamp e o doutorado em educação na UFBA. Egressa do Pré-Vestibular Steve Biko (2000 e 2001), Sheila atribui à instituição papel decisivo em sua formação acadêmica, autoestima, consciência racial e compreensão da ancestralidade e da luta contra o racismo.

O Prêmio Jovem Cientista trata-se de uma iniciativa brasileira voltada ao reconhecimento e incentivo à pesquisa científica e tecnológica, especialmente entre estudantes, jovens pesquisadores e instituições de ensino. Criado em 1981 busca aproximar ciência e desenvolvimento social, o prêmio valoriza trabalhos que apresentam soluções inovadoras para desafios relevantes da sociedade brasileira.

Em 2008, Sheila tornou-se a primeira mulher negra e baiana a receber o Prêmio Jovem Cientista, reconhecimento que atribuiu também ao trabalho coletivo da Biko. Para ela, democratizar a ciência exige educação pública de qualidade, formação de professores e políticas de Estado que ampliem o acesso de jovens negros às carreiras científicas e tecnológicas. Sua participação na Mobilização pela Isenção da Inscrição no Vestibular da UFBA (2001) e, posteriormente, sua atuação no Programa Oguntec, fortalecem a relação com a educação antirracista e com a ciência e a tecnologia comprometidas à resolução de problemas sociais.

 BATE-PAPO SHEILA REGINA:

George Oliveira: Quando você olha para a Sheila Regina de 2008, a jovem que foi reconhecida como Jovem Cientista, o que mais mudou e o que permanece igual na mulher que você é hoje?   

Sheila Regina: Minha essência permanece a mesma. É uma essência que vem dos meus ancestrais e que me acompanha nessa caminhada. O que mudou foi a minha força e a minha consciência sobre quem sou e sobre o lugar que ocupo. Hoje me sinto mais fortalecida, mais decidida e mais consciente, enquanto Mulher Preta. Preciso me posicionar todos os dias para enfrentar e amenizar as marcas deixadas pelo racismo. Continuo carregando comigo os mesmos valores e o compromisso de transformar a realidade por meio da educação e da ciência. Talvez hoje eu tenha mais consciência de que a minha trajetória individual nunca foi apenas minha: ela também é atravessada pelas histórias, pelas lutas e pelas resistências de muitas pessoas que vieram antes de mim.

 George Oliveira: Como foi a premiação (onde, quando e quem foi com você)?

Sheila Regina: Fui premiada na categoria Ensino Superior, na 23ª edição do Prêmio Jovem Cientista, em 2008, que teve como tema central “Educação para reduzir as desigualdades sociais”. Esse tema dialogava profundamente com o perfil e com a missão do Instituto Cultural Steve Biko, que compreende a educação como uma estratégia de resistência, emancipação e transformação social da população negra. Naquela edição, foram cerca de 1.748 inscrições de todo o país. Por isso, receber aquele reconhecimento teve um significado enorme. A premiação foi uma conquista de toda a equipe do Projeto Oguntec, criado em 2002 e que visa fomentar ciência e tecnologia para jovens negros e negras da Biko. Apenas fui a pessoa que colocou no papel e sistematizou uma experiência de sucesso que foi construída coletivamente. A premiação aconteceu em Brasília, no Palácio do Planalto. E, como aprendi na Biko, nunca estamos sozinhos. Estive acompanhada da minha mãe, Olga Pereira, da coordenadora pedagógica, Gabriela Gusmão, do coordenador-geral, Lázaro Passos, do professor Abraão e do colaborador Leonardo Souza, todos integrantes do Projeto Oguntec.

George Oliveira: Algum momento marcante? Como foi seu encontro com o Presidente Lula?

Sheila Regina: O encontro com o presidente Lula seguiu o protocolo da cerimônia, apesar de tranquilo estava super nervosa. Lembro que após o meu discurso, entreguei a ele uma camisa do Instituto Cultural Steve Biko. Ele agradeceu e disse: “Cumprimente os demais convidados. ” Foram muitos os momentos marcantes, principalmente o próprio ato da premiação. Ver o Projeto Oguntec sendo reconhecido por sua missão e por uma experiência concreta de transformação social foi, sem dúvida, um dos momentos mais importantes. A premiação representou muito mais do que uma conquista individual: representou o reconhecimento de uma experiência construída por muitas mãos, pela educação e pela luta por oportunidades para a juventude negra de Salvador.

 George Oliveira: Depois daquele reconhecimento em 2008, quais caminhos você percorreu na sua formação acadêmica e profissional?

Sheila Regina: Segui o caminho que já havia traçado desde que entrei no Instituto Cultural Steve Biko. Foi na Biko que aprendi que, apesar das tentativas de uma sociedade racista e machista de limitar os nossos caminhos, conquistar meus objetivos profissionais e pessoais é meu por direito. Compreendi que essa caminhada também faz parte de uma missão maior, que carrego comigo a partir dos meus ancestrais. Recebi uma bolsa de mestrado como parte da premiação. Isso foi muito importante, porque não precisei concorrer a uma bolsa da universidade e pude permanecer na Unicamp durante o mestrado. Fiz o mestrado em Estatística na Unicamp, uma experiência fundamental para a minha formação acadêmica e profissional. Depois do mestrado, retornei a Salvador e fiz o doutorado em Educação na UFBA.

 George Oliveira: Por onde anda hoje a nossa Jovem Cientista?

Sheila Regina: Atualmente, sou professora adjunta da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na área de Estatística e coordeno o setor de Seleção e Admissão da universidade. Então, por onde anda a Jovem Cientista de 2008? Ela continua caminhando. Continua acreditando na educação, na ciência e na possibilidade de transformação. Só que agora carrega comigo mais experiências, mais responsabilidades e uma consciência ainda maior de que ocupar esses espaços também abre caminhos para o povo preto.

 George Oliveira: Quais foram os principais desafios que você encontrou como mulher negra ao construir sua trajetória acadêmica e profissional e como conseguiu enfrentá-los?

Sheila Regina: Foram muitos desafios. A vida nunca é fácil para nós, mulheres negras. Não temos as mesmas oportunidades para ocupar determinados espaços, quando comparamos as oportunidades para uma pessoa branca. Independentemente dos resultados que alcançamos, muitas vezes somos vistas como inferiores, como pessoas que não deveriam estar ocupando determinados lugares. Uma situação que marcou profundamente a minha trajetória aconteceu durante o mestrado na Unicamp. Eu estava no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC), em um ambiente majoritariamente branco, quando o coordenador do curso de Estatística me chamou à sala dele para dizer que eu estava no lugar errado e que não tinha capacidade para concluir o mestrado na Unicamp. Essa atitude racista e machista, poderia ter me feito desistir. Eu sabia que aquele lugar também era meu. E permaneci. Minha família foi muito importante nesse processo, era onde buscava a energia diária para permanecer na UNICAMP. Mesmo com toda formação e leitura racial que aprendi na Biko, os impactos do racismo são devastadores.  Na UEFS, algumas vezes, ainda sou vista como estudante ou servidora. Existe, no imaginário da sociedade, que uma mulher preta não pode ser uma professora universitária. Isso mostra que, mesmo depois de tantas conquistas, ainda precisamos enfrentar os estereótipos e as barreiras que o racismo construiu. A minha trajetória também é uma forma de resistência. Cada espaço que uma mulher preta ocupa abre uma possibilidade para que outras mulheres negras também possam chegar. Por isso, continuo caminhando...

 George Oliveira: Se você pudesse voltar àquele momento de 2008 e conversar com a jovem Sheila que estava começando sua caminhada, o que diria a ela hoje?

Sheila Regina: Eu diria para aquela jovem Sheila de 2008: não tenha medo de ocupar os espaços que são seus por direito e pertencimento. Você vai encontrar pessoas que tentarão fazer você acreditar que não é capaz, que está no lugar errado ou que determinados lugares não foram feitos para você. Não acredite nisso. Continue estudando, continue sonhando e, principalmente, não esqueça de onde você veio. Lembre-se sempre de que você não caminha sozinha. Há uma história antes de você, há pessoas que lutaram para que você pudesse chegar até aqui e há outras pessoas que virão depois de você. Não deixe que o racismo defina o tamanho dos seus sonhos. Você vai se cansar algumas vezes, vai encontrar portas fechadas e talvez questione se vale a pena continuar. Quando isso acontecer, lembre-se da sua ancestralidade, da sua história e de tudo aquilo que você já conseguiu superar.

 George Oliveira: Qual mensagem você destina, aqui no nosso bate papo, para as jovens negras que estão chegando à Biko atualmente?

Sheila Regina: Para as jovens negras (os) que estão chegando hoje à Biko, eu diria: Acreditem em vocês. Estudem. Ocupem os espaços. Questionem quando disserem que vocês não pertencem ao lugar que sonham. E nunca se esqueçam de que a educação é uma ferramenta poderosa de transformação. A Biko me ensinou que conhecimento também é resistência. E, quando um (a) jovem negra (o) entra em uma universidade, torna-se cientista, professor (a), médica (o), engenheira (o), pesquisadora (o) ou ocupa qualquer outro espaço historicamente negado à população negra, ela (e) não está apenas realizando um sonho individual. Estão também ampliando as possibilidades para muitas (os) outras (os) que virão. Por isso, sigam. Mesmo quando for difícil, sigam. Não desistam de vocês e não desistam dos nossos sonhos.

 “Não deixe que o racismo defina o tamanho dos seus sonhos.”

Sheila Regina dos Santos Pereira

  REFERÊNCIAS:

Blog da Biko: https://blogdabiko.blogspot.com/2010/05/bikodisse-entrevista-sheila-regina.html

 

Este artigo integra a série "Memórias da Biko: 33 fatos sobre a Biko", escrita por George Oliveira. 

George Oliveira 
Ativista do Movimento Negro, economista, mestre em Gestão Social e doutorando em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atuou por mais de duas décadas no Instituto Steve Biko, onde exerceu a função de coordenador financeiro e gestor administrativo. É pesquisador das relações raciais, educação e equidade racial, além de escritor e palestrante antirracista.

 



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